Buddhismo
Boomeritis

Ken Wilber

"A existência do Buddhismo "boomeritis" exige particularmente um sofisticado modelo psicoespiritual para que possamos delinear seus contornos. Isto exige, ao mínimo, o que nós chamamos um modelo estágio-4, que inclui todos os quadrantes, todos os níveis, todas as linhas, todos os estados, todos os tipos ? é muita coisa, não? Como muitos de vocês sabem, neste seminário introdutório sobre boomeritis estamos usando apenas o modelo estágio-2 - ou uma Espiral de desenvolvimento em forma de escada, porque este é o mais simples modelo que pode lidar de forma essencial com os pontos; mas quando surgem as sutilezas do desenvolvimento espiritual, estes tipos de modelos-escada não funcionam muito bem.

"O modelo que nós usamos no IC é mais complexo, mas até onde nós podemos dizer, ajusta os dados pertinentes (e quando não o faz, nós o mudamos, ou certamente tentamos). Neste momento ele inclui os quatro quadrantes--intencional, de comportamento, social, e cultural-- assim como os fenômenos extremamente importantes de níveis e linhas (ou ondas e fluxos)--a idéia é que diferentes linhas desenvolvimentais (por exemplo, cognitiva, moral, interpessoal, espiritual, emocional, artística, cinestésica, etc.) procedem de uma forma relativamente independente pelos vários níveis/ondas/estágios de consciência (por exemplo, pré-convencional, convencional, pós-convencional), de forma que uma pessoa pode estar em um nível bastante alto de desenvolvimento em algumas linhas, médio em outras, e baixo em ainda outras--assim, há muito pouco que seja linear acerca do desenvolvimento global.

"Este modelo integral também inclui os fenômenos importantes dos estados e estágios--isto é, uma pessoa pode ter uma experiência de pico ou estado alterado de consciência a virtualmente qualquer estágio/nível/onda de consciência. Estados alterados são de (pelo menos) quatro variedades principais, representando quatro estados extensamente presentes, naturais de consciência--de alerta (total), de sonho (sutil), sono profundo (causal), e não-dual (nos dando estados espirituais tais como, respectivamente,: misticismo de natureza, misticismo de deidade, misticismo sem forma, e misticismo não-dual. Veja: 'Os Estados e Estágios).

O que isto significa, para dar um rápido exemplo, é que alguém no, digamos, estágio azul de desenvolvimento pode ter um estado alterado ou experiência de pico de um estado sutil--digamos, uma experiência de Luz divina ou Luminosidade interior--mas a pessoa tenderá a interpretar aquela experiência pelo aparato mental que desenvolveu em seu caso particular. Neste exemplo, a pessoa interpretará a experiência espiritual em termos do replicador azul, em cujo caso veríamos algo como a experiência fundamentalista de 'renascimento': esta pessoa sente, com certeza absoluta, que Jesus veio pessoalmente a ela, e que ninguém pode ser salvo a menos que aceite Cristo como seu salvador pessoal. A experiência do estado sutil é muito real e autêntica, mas é interpretado através do nível mental "replicador azul" mítico-grupal, concreto-operacional.

"Essencialmente a mesma coisa acontece com os outros níveis principais ou estágios ou ondas de desenvolvimento. Uma pessoa em virtualmente qualquer estágio de consciência pode ter um estado alterado de consciência (total, sutil, causal, ou não-dual), mas ela interpretará aquela experiência pela lente da estágio geral que está--quer dizer, interpretar pelas estruturas mentais que possui ou aquelas já emergentes em seu desenvolvimento. Uma pessoa pode ter uma profunda experiência-satori de pura Vacuidade (o reino sem forma), mas aquela pessoa geralmente interpretará esta experiência espiritual nos termos de seu estágio comum de desenvolvimento (por exemplo, uma pessoa cujo centro de gravidade é azul interpretará estados alterados principalmente em termos azul ou míticos; uma pessoa verde os interpretará em condições pluralistas, e assim por diante)".

Existem, claro está, uma grande variedade de estados alterados de consciência que estão disponíveis aos homens e mulheres sob diferentes circunstâncias, mas, como indicado, há pelo menos três estados principais disponíveis para virtualmente todo o mundo: alerta, sonho, e sono profundo, e esses estados podem dar origem, como já sugerimos, a experiências espirituais tais como misticismo de natureza (ou unidade com o reino grosseiro), misticismo de deidade (ou unidade com o reino sutil), e misticismo sem forma (ou unidade com o reino causal). Nós também acrescentamos consciência não-dual, que muitas tradições mantêm como a sempre-presente mente comum. O ponto simplesmente é que muitos destes estados alterados profundos estão disponíveis aos indivíduos em virtualmente qualquer estágio de desenvolvimento, simplesmente porque todo o mundo está alerta, sonha, e dorme.

"Incidentemente, é importante entender por que as grandes tradições de sabedoria--inclusive Buddhismo, Hinduísmo, Cristianismo, Judaísmo, Taoísmo, Shamanismo, e tradições indígenas--não tenham nenhum modelo de estágio como este da Dinâmica Espiral. Nós analisamos esta idéia extensivamente em outros seminários [veja Sidebar G, subtítulo, "Two Types of Stages, and Why the Contemplative Traditions Only Have One of Them"; e especialmente o Sidebar I e Sidebar J, a serem enviados em breve.] Mas a idéia geral é bastante simples: as ondas de consciência de desdobramento descobertas por pessoas como Clare Graves, Abe Maslow, Jane Loevinger, Robert Kegan, Susann Cook-Greuter, et al., são estágios intersubjetivos/interobjetivos, não estágios meramente subjetivos, e portanto não podem ser captados através de práticas como meditação, contemplação, introspecção, e assim por diante. Eles são fundamentados principalmente nos mais baixos quadrantes, não nos quadrantes superiores, e assim escapam da Fenomenologia e hermenêuti ca em grande parte (e da atenção das tradições de sabedoria). Esta, desnecessário dizer, é uma séria deficiência, que pode ser remediada através de uma psicologia mais integral. As grandes tradições não estão erradas, apenas muito parciais nesta questão, mas isso é bastante fácil de resolver!

"Certo, assim olhemos para os fenômenos de estados e estágios que usam a Dinâmica Espiral como exemplo. Como estávamos dizendo, uma pessoa em vermelho pode ter um estado alterado de experiência grosseiro, sutil, ou causal (por exemplo, uma pessoa em vermelho pode ter uma experiência de pico de misticismo de natureza, misticismo de deidade, ou misticismo sem forma). Uma pessoa em azul também pode ter um estado alterado de experiência grosseiro, sutil, ou causal. E igualmente poderia o laranja, verde, amarelo, e assim por diante. Em outras palavras, usando este modelo simples como exemplo, cada um dos 8 estágios pode experimentar os 3 estados principais. Isto nos dá uma grade de 24 tipos diferentes de experiências espirituais. Nossos investigadores aqui no IC acharam exemplos aceitáveis de todos os 24 (exceto nos limites extremos, onde as coisas se esvaecem). [Veja Sidebar G, subtítulo: 'A Lattice of Altered States'; Integral Psychology; e Combs, The Radiance of Being, second revised edition.]

"É minha opinião que cada uma dessas experiências espirituais é, ou pode ser, uma real e autêntica experiência. Porém, essas experiências são interpretadas mais adequadamente quanto mais alto for o estágio que os experimenta. Uma experiência turquesa do Sagrado, por exemplo, atestaria o fato de que o Divino é livremente oferecido a todos os seres sensíveis, por outro lado uma experiência azul do Sagrado sustentaria que Deus só é oferecido a algumas pessoas escolhidas, ou apenas para os poucos que abraçam esta versão particular de Deus, ou apenas para esta nação, e assim por diante--em outras palavras, azul é o Espírito etnocêntrico, turquesa é o Espírito holocêntrico. Embora esses dois indivíduos possam ter tido uma experiência espiritual autêntica (neste caso, a experiência de um real, muito autêntico estado sutil), a interpretação turquesa é mais adequada ao Espírito que a do azul porque o turquesa tem mais profundidade desenvolvimental e é portanto mais inclusivo e mais integral.

"Esta abordagem pode nos ajudar a dar sentido a muitas experiências aparentemente contraditórias. Por exemplo, o Shamanismo é uma profunda técnica de indução aos estados alterados de natureza psíquica e sutil. Por isto é justamente respeitado por muitos contemporâneos que procuram por uma saída da "terra plana" [o mundo excessivamente superficial]. Ao mesmo tempo, o shamanismo emergiu originalmente em estruturas tribais que eram púrpuras e vermelhas, e assim as interpretações que cercam alguns destes estados shamânicos são, pelos padrões de hoje, um pouco problemáticas, antiquadas, restritivas, ou até mesmo regressivas. O truque é ser capaz de alcançar a tecnologia de estados alterados mas ajustá-las a interpretações mais adequadas (por exemplo, turquesa ou mais altas). Mas o shamanismo em si mesmo--o shamanismo original--era, usando termos suaves, uma boa miscelânea. Surgiu em culturas que eram profundamente etnocêntricas, que freqüentemente praticavam técnicas forrageiras de corte-e-queimada, que achavam o infanticídio uma necessidade, que agressivamente dividiam o mundo em 'nós' contra 'eles', e cuja estrutura tribal os mantinham firmemente longe de uma compaixão holocêntrica. Assim vamos ter cuidado com o que nós louvamos, sim? Nós não estamos negando que os estados shamânicos eram ESTADOS mais altos--mas a quais ESTÁGIOS você os está ligando?

"Em outras palavras, a existência de estados e estágios é muito importante porque nos ajuda a entender o fenômeno do Buddhismo boomeritis--ou a espiritualidade boomeritis em geral, seja afetando o shamanismo, misticismo da natureza, ecofeminismo, misticismo de deidade, espiritualidade descendente, Cristianismo contemplativo, Neo-Vedanta, Kabbalah, ecologia profunda, e assim por diante".

"Em poucas palavras, aparentemente o Buddhismo boomeritis?e a espiritualidade boomeritis em geral--acontece quando o centro de gravidade de uma pessoa está na idéia-replicadora verde, entretanto aquela pessoa tem uma muito real, muito autêntica experiência de algum dos estados de consciência transpessoal e transracional. Especialmente durante os estados meditativos de consciência, uma pessoa pode experimentar uma gama larga de eventos transracionais, incluindo estados sutis de experiências visionárias (misticismo de deidade, savikalpa samadhi, Sambhogakaya), estados causais de consciência sem forma (Vacuidade do imanifesto, nirvikalpa samadhi, Dharmakaya), e até mesmo de consciência não-dual (sahaj samadhi, Svabhavikakaya, Experiência Una não-dual)".

"Mas por mais autênticos que esses estados verdadeiramente sejam--e ninguém está negando isso! ? eles são imediatamente capturados e interpretados pela idéia-replicadora verde. Por conseguinte, a pessoa interpreta o Buddhismo --ou simplesmente suas próprias experiências espirituais?como significativo de que a espiritualidade autêntica deve ser anti-hierárquica, relativista, uma questão principalmente de compartilhamento participatório, focalizada no diálogo atencioso, um democrático abandono de qualquer posição de autoridade entre o professor e o estudante ('o sangha é o buddha'), negando qualquer classificação e julgamento, encorajando uma multiplicidade e diversidade de verdades igualmente válidas, afirmando uma pluralidade de princípios espirituais, desenfatizando a iluminação uma vez que qualquer estado 'mais alto' poderia marginalizar alguém, enquanto vê-se o professor espiritual como apenas um amigo com quem nós caminhamos o não-hierárquico caminho espiritual, de mãos dadas como iguais, enquanto dispens amos a intensa disciplina e negamos que o despertar seja qualquer coisa diferente do lavar a roupa com algum tipo de consciência..."

(...) "Novamente, não é que esses fatores estejam errados, ou sejam ruins, ou incorretos. Antes, pertencem essencialmente ao sistema de valores da idéia-replicadora verde, e como tal, eles não participam dos ainda mais abrangentes valores do integrativo Segundo Alinhamento. Esses valores verdes simplesmente não são incluídos em interpretações mais profundas e mais altas e mais abrangentes, mas somente se tornam um fim em si mesmos, a ponto destes valores verdes marginalizarem e rejeitarem os outros sistemas de valor".

"Como nós vimos, o padrão verde reivindica ser inclusivo e não-marginalizante, mas na realidade não deixará o vermelho ser vermelho, ou que o azul seja azul, ou laranja seja laranja, ou que o amarelo sejaamarelo--em muitos casos, menospreza esses valores e lhes dirá isso sem nenhuma reserva! (A idéia-replicadora verde fica incomodada com o controle vermelho, tem sérias reservas aos valores conservadores azuis, insulta freqüentemente o capitalismo laranja, detesta hierarquias amarelas, recua diante dos universais turquesa, e assim por diante.) A Diretiva Principal da consciência de segundo-alinhamento, por outro lado, percebe que o vermelho saudável deve ser permitido ser vermelho a seu próprio modo, o azul saudável deve ser permitido ser azul, o laranja deve ser laranja, o verde deve ser verde, e assim por diante--e deste modo apenas uma consciência integral que atravessa o espectro inteiro de consciência pode emergir e não privilegiar os valores de uma onda "idéia-replicadora" indevidamente, neste caso, a ve rde."

(...) "Com 25% da população americana sendo verdes (os 'criativos culturais'), e menos de 2% pertencendo ao Segundo Alinhamento, a probabilidade do Buddhismo ser capturado pela idéia-replicadora verde realmente é muito alta. Quer dizer, a maioria dos budistas americanos são budistas da idéia-replicadora verde, por simples demonstração demográfica".

"Mais uma vez, isto não é bom ou ruim, simplesmente é. Mas traz certas repercussões que eu acredito qualquer pessoa interessada no Buddhismo--ou na espiritualidade em geral--deveria estar atenta".

"Primeiramente, um Buddhismo verde-idéia-replicadora não é certamente um Buddhismo turquesa ou integral, como certamente são os maiores textos do Mahayana e do Vajrayana. Por exemplo, pense no Avatamsaka Sutra, que provavelmente é tão turquesa quanto a onda turquesa pode ser; o Lankavatara Sutra, um trabalho de gênio pertencente ao Segundo Alinhamento que elucida a hierarquia aninhada da evolução de consciência, que se estende por toda esta fase até o Terceiro Alinhamento; os Anuttara Tantra do Vajrayana que consistem em instruções turquesa sobre as sutis energias Kósmicas holísticas, que conduzem à consciência do Terceiro Alinhamento e ao grande Esclarecimento; os Dzogchen Upadesha, tratados espirituais que descrevem a consciência à medida que esta se desdobra do primeiro ao segundo até o terceiro alinhamento e à realização da Presença sempre-manifesta; e até mesmo a psicologia Abidharma do Theravada, exposições profundas sobre a consciência do Terceiro Alinhamento. Nenhum destes Tratados são idéias-replicad oras verde; eles são todos Tratados do segundo e terceiro alinhamentos --e, meus amigos, este fato é muito importante.

"Recordem que as ondas do Primeiro Alinhamento são beges, roxas, vermelhas, azuis, laranja, e verdes; o que define cada uma delas é que elas acreditam que seu sistema de valor e visão global são as únicas visões que estão fundamentalmente corretas. Por outro lado, as ondas de consciência do Segundo Alinhamento ?a amarela e a turquesa--são ondas verdadeiramente integrais, pois incluem uma consciência intuitiva de todas as ondas-idéia-replicadoras do Primeiro Alinhamento e assim podem perceber a importância de cada uma, já que cada uma delas são um ingrediente necessário na Espiral abrangente de crescimento, além de perceber que também são holárquicas recorrentemente (relembrem que Beck e Cowan consideram que a aceitação da holarquia, ou hierarquia aninhada, é uma das características definidoras do segundo alinhamento). E finalmente, o Terceiro Alinhamento é um termo geral para todos os estados e estágios que são trans-turquesa ou verdadeiramente transpessoais, transracionais e supramentais".

Em outras palavras, os que nós queremos são modelos de Segundo Alinhamento de consciência que incluam a consciência de primeiro -, segundo -, e terceiro-alinhamento. Quer dizer, queremos tentar usar a mente em sua capacidade mais alta de pensamento integral (amarelo e turquesa) para que possamos ter uma visão geral do espectro inteiro de consciência, e isto inclui apontar pelo menos para os estados que são trans-turquesa, supramentais e transpessoais. Claro que, não existem modelos mentais de estados de terceiro-alinhamento porque esses mesmos estados são transmentais: quando você está experimentando o terceiro alinhamento diretamente?como durante o nirvikalpa samadhi ou no puro estado sem forma--não há nenhuma mente conceitual para criar modelos! Mas quando sairmos desses estados transmentais, então claro que podemos fazer mapas e modelos mentais daqueles, com a compreensão de que você tem que experimentar diretamente esses estados e estágios de terceiro-alinhamento e não somente falar sobre eles! " (...).

"Portanto é isso que queremos dizer quando afirmamos desejar modelos de Segundo Alinhamento do inteiro espectro (de primeiro, segundo e terceiro alinhamentos). Bons exemplos disto incluem James Mark Baldwin, William James, Michael Murphy, Roger Walsh, Jenny Wade, Charles Tart, Joel Funk, Michael Washburn, Skip Alexander, Francisco Varela, Susann Cook-Greuter, Frances Vaughan, e assim por diante. Esperançosamente, claro, nós não ofereceremos somente modelos mentais, mas também incluiremos práticas espirituais que nos permitirão experimentar diretamente os estados e estágios mais altos, supramentais, de terceiro-alinhamento. Mas ao menos queremos incluir um reconhecimento desses estados dentro de nosso modelo mental integral de segundo-alinhamento".

"Como dissemos, muito do terceiro alinhamento, e especialmente o elemento causal, é supramental e não-representacional (e portanto, quando você está nesses estados do terceiro-alinhamento não é capaz de criar modelos mentais); porém, uma vez que a pessoa 'sai' desses reinos, ele ou ela os interpreta nas condições de sua organização mental. E o turquesa, mesmo sendo o mais integral dos reinos mentais evoluidos, é o melhor equipado, neste momento, para representar mentalmente de forma completa o espectro global de consciência. Assim, novamente, queremos mapas turquesa das ondas do primeiro, segundo, e terceiro alinhamento (ou o espectro inteiro para a extensão do que pode ser representado em mapas--que não é muito, a propósito, mas isso não significa que tais mapas não tenham nenhuma serventia).

"Os problemas começam quando você interpreta estes eventos de terceiro-alinhamento somente sob as condições do Primeiro Alinhamento, o que acontece com a idéia-replicadora verde do Buddhismo. Ou a idéia-replicadora verde do Shamanismo, ou a idéia-replicadora verde da Kabbalah, ou a idéia-replicadora verde do Pluralismo, e assim por diante. Novamente, isto não é necessariamente ruim, mas pode ter certas conseqüências muito infelizes."

(...) "Porque onde quer que o verde vá, boomeritis o segue. E da mesma maneira que o boomeritis absorveu tanto da onda verde neste país, assim o Buddhismo boomeritis é um das formas mais prevalecentes de Buddhismo que atualmente nos chama a atenção. Suas doutrinas são as mesmas que nós vimos e que são características do boomeritis em geral, mas agora presas à experiência autêntica de estados meditativos de consciência, que são interpretadas para apoiar então o sistema de valores da idéia-replicadora verde."

(...) "O resultado é um Buddhismo que reivindica ser igualitário, pluralista, não-marginalizante, anti-estágio, e especialmente anti-hierarquia. E, ai, todos os movimentos da "perversa idéia-replicadora verde" entram em jogo: ele reivindica ser igualitário, mas na verdade condena todas as visões que discordam disto (mas como isto é possível, se todas as visões são verdadeiramente iguais?) rejeita o modelo professor-estudante, desde que sejamos todos amigos espirituais ligados ao mesmo caminho (mas por que as pessoas estão pagando tanto dinheiro a estes professores, se somos todos iguais?) rejeita a hierarquia em qualquer natureza (mas por que classifica sua visão como melhor do que todas as alternativas?) reivindica que o pluralismo é a verdadeira voz do Mistério Divino (mas por que rejeita todas as numerosas outras vozes que discordam dele?) E às vezes chega ao ponto de negar completamente a importância da Iluminação, porque todas as experiências espirituais devem ser vistas igualmente sem qualquer julgament o ou classificação hierárquica, e afirmam que existir algo chamado 'iluminação' insinuaria que aqueles não iluminados de alguma maneira são inferiores, e isso não é uma coisa agradável para dizer, e portanto não diremos isto. A verdadeira raison d'etre do Buddhismo--isto é, livrar do sofrimento através da Grande Liberação da mente desperta, que permite a salvação compassiva de todos os seres sensíveis--é jogada fora pela janela porque é politicamente incorreta."

(...) "Bem, a lista das táticas da "perversa idéia-replicadora verde" é tão legendária quanto extensa. O fato do Buddhismo boomeritis exibir todas essas características não é nenhuma surpresa, mas a real impostura aqui é que um Buddhismo verdadeiramente integral provavelmente nunca irá se enraizar no Ocidente se o Buddhismo boomeritis manter o controle que certamente possui neste momento.

"O ponto é bastante simples: se você leu os ensaios deste seminário sobre "Boomeritis" que demos aqui no IC, então você terá um entendimento bastante claro do boomeritis--o que é, o que significa, como surgiu. Se você simplesmente olhar as muitas das formas de espiritualidade agora disponíveis, inclusive o Buddhismo, irá, eu temo, as descobrir envoltas em boomeritis. Meus colegas aqui no IC são de uma só opinião: o Buddhismo boomeritis provavelmente é a maior ameaça interna ao Dharma no Ocidente."

Tradução de Claudio Miklos


Buddhismo Boomeritis: Termo quase intraduzível criado por Ken Wilber para denotar a "doença" da "perversa idéia-replicadora-verde" (Mean Green-Meme, um pensamento característico do padrão de consciência ou ONDA denominada "verde", transmitido de forma insalubre e infecciosa entre um grupo de seres humanos), "infectando" a geração pós-moderna e "espalhando-se" por toda uma cultura. Ken Wilber, escritor, filósofo e teórico de Psicologia Integral e autor do sistema "todos os níveis, todos os quadrantes" de descrição das experiências conscienciais. [Buddhismo Boomeritis é o mais sério--e perturbador-- tópico que uma pessoa pode imaginar. Mas, em minha opinião, se você está interessado em entender este tópico, o único modo para fazer isso é ler o romance "Boomeritis" primeiro, ou então o assunto central aqui realmente não será compreendido. Para esses que assim fizeram, o ensaio abaixo representa algumas reflexões sobre o que eu acredito ser a única grande ameaça ao Buddhadharma no Ocidente. Um dos dois ou três professores buddhistas americanos mais populares, depois de ler Boomeritis, enviou-me um e-mail e disse: "Hum, penso que tenho esta doença." Eu acredito que a grande flexibilidade e não-apego que o treinamento budista instila nas pessoas serão fortes o bastante para permitir que o boomeritis seja superado, mas se isso acontecerá ou não ainda está para ser testemunhado.--kw]