See also: WILBER'S WRITINGS ON THE CURRENT WORLD CRISIS

A Guerra no Iraque

Ken Wilber

Alô amigos,

Permitam-me tecer alguns comentários sobre uma situação em que praticamente nada pode ser dito, ou escutado, com equanimidade: a guerra no Iraque.

Durante muitos anos - na verdade, por cerca de três décadas - recusei, respeitosamente, qualquer tipo de entrevista detalhada sobre meu trabalho, simplesmente porque não desejava que a minha pessoa fosse o foco; queria que fossem focadas as idéias em si; assim, mantive um perfil público muito discreto (estou certo de que não preciso dizer isto à maioria de vocês).

Cerca de um ou dois anos atrás, abri uma exceção para meu amigo Jordan Gruber, que fez um trabalho magnífico produzindo Speaking of Everything.[1] Há muito tempo prometera a outra amiga, Tami Simon, da Sounds True (a maior produtora mundial de áudio), que, se algum dia desse uma entrevista completa sobre minha obra, eu o faria através dela e da Sounds True. Tami é uma mulher notável, uma das minhas amigas favoritas. Assim, no mês passado, pensei: que diabos, vamos fazê-la. Tami e sua equipe vieram ao meu apartamento em Denver e, durante 4 ou 5 dias, gravamos aproximadamente 20 horas de material, cobrindo, basicamente, todos os fundamentos: quadrantes, níveis, linhas, estados e tipos, mais todas as coisas necessárias, pessoais, embaraçosas, humilhantes, que acompanham este tipo de trabalho (:-). No próximo outono, Tami planeja lançar um conjunto de 10 CDs chamado, eu acho, Kosmic Consciousness, com todas aquelas 20 horas de gravação, para pessoas tão perturbadas a ponto de achar esta possibilidade interessante.

Durante a longa discussão, naturalmente veio à tona o tópico sobre a guerra no Iraque: o que poderia significar, por que estava acontecendo, qual era o papel dos protestos, e assim por diante. Até então, eu havia feito uma única declaração sobre a situação no Oriente Médio - "The Deconstruction of the World Trade Center" [postado no site wilber.shambhala.com] - e esta declaração ainda contém minha posição geral sobre esta (ou qualquer) guerra. Quando fui instado a me pronunciar especificamente sobre a atual guerra no Iraque, falei somente o seguinte:

Você gostaria de adicionar alguma coisa desde que escreveu "A Desconstrução do World Trade Center"?

Não, mas lembre-se: se você for verde, você é contra a guerra. Mas se for contra a guerra, não é necessariamente verde. Existem razões de segunda-camada para não se ir à guerra. Porém, também há razões de segunda-camada para se ir à guerra. Os verdes não têm escolha - eles não irão. A segunda-camada tem escolha; portanto, pese cuidadosamente as evidências. De fato, a segunda-camada pode ou não recomendar a guerra. Mas você pode verificar se é "meramente" verde, perguntando-se sob que condições recomendaria a guerra. Se não conseguir pensar em nenhuma, então bem-vindo ao verde. Ainda assim, o assunto é imensamente complicado, mesmo através de lentes integrais; portanto, pese cuidadosamente as evidências.

O grande problema dessa discussão é que é inteiramente de primeira-camada. O azul diz: bombardeie o inferno daqueles malditos; o laranja diz: está bem, mas apresse-se porque você está prejudicando o mercado de ações; o verde diz: de jeito nenhum, sejamos amorosos. A primeira-camada tem muita dificuldade para observar grandes imagens, daí mover-se em torno das estruturas parciais de valores que a definem. Estou me mantendo fora desta discussão desde o ensaio sobre o WTC. É, basicamente, uma grande briga de foice de primeira-camada.

Infelizmente, o mundo necessita de ação integral. Infelizmente, não a conseguiremos, indo ou não à guerra. Assim, é melhor acender uma vela do que reclamar da escuridão. Portanto, trabalhemos em nós mesmos e tentemos aumentar nossa própria consciência integral, um passo a cada dia, de modo que, no final, deixemos o mundo um pouquinho mais inteiro do que o encontramos…

Farei agora mais algumas considerações, não porque acredite que vozes mais sensatas possam ser ouvidas, e não porque acredite que tenha uma voz mais sensata, mas simplesmente porque as vozes insensatas são tão agudas, que umas poucas palavras inúteis a mais não farão mal a ninguém.

Iniciemos repetindo uma pergunta feita por Tami. Havíamos terminado a "primeira metade" da entrevista, que tratou do material teórico, e agora estávamos falando sobre suas aplicações no mundo real, nada sendo mais real do que a guerra. Tami perguntou-me, "Se você pudesse consertar a situação do mundo, o que você faria? Qual é sua visão utópica para tratar as guerras?"

Como normalmente faço, usei os termos da Espiral do Desenvolvimento Integral de Don Beck para explicar alguns pontos. Os estudantes da minha obra sabem que, na minha opinião, a Espiral do Desenvolvimento focaliza uma única linha de desenvolvimento - aquela de valores (vMemes) - entre, no mínimo, duas dúzias de outras linhas de desenvolvimento (cognitiva, interpessoal, psico-sexual, matemática, cinética, etc.). Mas é uma linha tão importante, facilmente entendível, que possibilita uma excelente visão introdutória. Don situou esta linha na estrutura TQTN[2] (que ele chama também 4Q/8N, "quatro quadrantes, oito níveis na linha") para produzir a Espiral de Desenvolvimento Integral, uma maravilhosa versão de uma psicologia integral. É claro que aqui não estou falando nem em nome de Don, nem em nome da Espiral de Desenvolvimento, mas sim da minha própria psicologia integral, porém usando, felizmente, alguns termos da Espiral de Desenvolvimento Integral para continuar a argumentação.

Como um ponto de partida utópico, em resposta à pergunta de Tami, sugiro, a seguir, umas poucas coisas de como poderia ser um sistema de governo mundial que funcionasse no amarelo. "Amarelo" é o nível de consciência no qual a "segunda-camada", ou a consciência realmente integral, começa a emergir. Portanto, ele contrasta com os seis níveis ou vMemes anteriores, que são chamados de primeira-camada, cada um dos quais acredita que seu sistema de valores é o único verdadeiro, correto ou que valha mesmo a pena existir. Muito resumidamente, esses níveis de primeira-camada são: bege: instintivo; roxo: mágico-animista, tribal; vermelho: egocêntrico, poderoso, feudal; azul: associação-mítica, conformista, fundamentalista, etnocêntrico, tradicional; laranja: excelência, conquista, progresso, moderno; verde: pós-moderno, multicultural, sensível, pluralista.

Essas ondas de primeira-camada são seguidas por aquilo que Clare Graves chamou de "o importante salto de significado" para a segunda-camada, apresentando, até o momento, dois níveis ou ondas de consciência principais: amarelo: sistêmico, flexível, fluente; turquesa: unidade cósmica, integrativo, hierarquias nidiformes de interrelacionamento, holismo, unidade-na-diversidade. O foco da discussão utópica é simples: como poderá ser um mundo cujo centro de gravidade estiver na segunda-camada? A seguir, usarei os termos "segunda-camada", "integral", "amarelo" e "turquesa" indiferentemente; os pontos que desejo ressaltar são muito genéricos.

A razão pela qual Graves chamou a segunda-camada de um "salto importante" é que, diferentemente de todas as ondas de primeira-camada (que imaginam que seus valores são os únicos corretos), a segunda-camada compreende a crucial importância, embora relativa, de todos os valores prévios - incluindo os valores vermelhos, azuis, laranjas e verdes. O laranja acha que o verde é desmiolado; o verde despreza o laranja; o azul acredita que ambos vão queimar eternamente no inferno. Por outro lado, o amarelo sabe que todos são necessários e aceitáveis, desde que nenhum deles levante a mão e comece a reprimir os outros. É escusado dizer que isto teria uma profunda influência numa Federação Mundial que operasse no amarelo ou pelos valores de segunda-camada.

Existem dois pontos fundamentais a ter-se em mente sobre um futuro sistema de governo mundial. O primeiro é que as leis, para serem leis, são promulgadas pelo mais elevado nível médio de desenvolvimento esperado do sistema de governo. No mundo atual, por exemplo, a maioria das leis nas democracias ocidentais origina-se do nível laranja: globocêntrico, pós-convencional e moderno (ou como nossos amigos franceses expressaram pela primeira vez o meme laranja há 300 anos: liberdade, igualdade, fraternidade). Muitos países continuam a funcionar basicamente no nível azul: conformista, não-democrático (ditatorial ou totalitário), sustentado, não por evidências, mas por dogmas (marxistas, muçulmanos e outros), e etnocêntrico (creia no Livro ou queime no inferno). Algumas células terroristas (para não mencionar gangues de rua) continuam no vermelho: hierarquias de poder incipiente apoiadas pela força bruta, implantadas normalmente por tortura, estupro ou quaisquer meios necessários para manter um chefe guerreiro no poder. Embora estruturas vermelhas e azuis possam parecer muito brutais, e frequentemente o são, elas devem ser compreendidas no contexo: usualmente são as melhores que podem ser obtidas sob dadas circunstâncias e condições.

Assim, perguntamos, como poderia ser um sistema de governo - uma Federação Mundial - se funcionasse a partir da segunda-camada e implantasse suas leis fundamentais de um centro de gravidade amarelo (ou superior)? Mas antes de respondermos, há um segundo item básico a ser considerado, isto é: independentemente de quão elevada uma sociedade possa ser - incluindo aquela em que o centro de gravidade seja amarelo - todos nessa (e em qualquer sociedade) nascem na estaca-zero. Só porque uma sociedade é "amarela", não significa que todos nesta sociedade serão amarelos; ao contrário, muito poucos o serão, pelo menos num primeiro momento, do mesmo que hoje, em nossas sociedades laranjas, nem todo mundo está no laranja; de fato, pelo menos metade da população adulta é pré-laranja (roxo, vermelho, azul). Apenas nossas leis, em sua maioria, originam-se do laranja.

Isto significa que, mesmo numa "sociedade integral" (amarela ou superior), haverá bolsões ou subculturas de indivíduos no roxo, vermelho, azul, laranja e verde. Isto não é somente inevitável, como é saudável, normal e desejável. Entretanto, o que não é desejável é que qualquer dessas ondas domine o sistema de governo e, portanto, tente impingir seus valores às outras - sejam valores vermelhos, azuis, laranjas ou verdes. Resumindo, uma sociedade amarela teria leis que se originariam basicamente daquele nível de consciência de segunda-camada. E a característica fundamental definidora do amarelo é que ele aceita todos os valores anteriores, sem permitir que nenhum deles reprima ou domine os outros.

Portanto, uma Federação Mundial, de segunda-camada, integral, - em minha visão utópica - impediria que os memes de primeira-camada dominassem, atacassem ou explorassem quaisquer populações. Se necessário, uma Federação Mundial usaria o poder de polícia, exatamente como todas as democracias contemporâneas, que possuem uma força policial interna para restringir homicídios, estupros, assaltos, extorsões, etc. Alguém cujo centro de gravidade seja verde não cometerá assassinatos, estupros ou assaltos. Entretanto, alguém cujo centro de gravidade seja vermelho fará qualquer uma dessas coisas, algumas vezes até alegremente. E como todos nascem na estaca-zero e devem progredir através do roxo, vermelho, azul, e assim por diante, algum tipo de polícia será sempre necessário para proteger as pessoas daquelas que não evoluírem até um nível globocêntrico de cuidado e compaixão.

Assim, uma Federação Mundial teria, necessariamente, algum tipo de polícia. Chamemo-la de Guarda Mundial. Escusado dizer que a Guarda Mundial seria regulamentada pela Federação Mundial, e não por um país específico (e, com certeza, não pela América, Inglaterra, França, Alemanha, etc.).

Esta força policial NÃO estaria autorizada a dizer para as pessoas em que nível de consciência deveriam estar; NÃO estaria autorizada a controlar o que as pessoas fazem na privacidade de seus lares ou casas; NÃO estaria autorizada a coagir ou intimidar as pessoas que não se encontrem no nível médio de desenvolvimento social. Entretanto, estaria autorizada a frustrar (ou punir) todos aqueles que tivessem um comportamento público derivado de um ponto-de-vista que não fosse globocêntrico. Por exemplo, se na privacidade do meu lar, penso em lançar à fogueira todas as pessoas que não aceitem Jesus como seu salvador pessoal, estou no meu direito. Por outro lado, se realmente atiro em você porque não acredita em Jesus, então o Estado - neste caso, a Federação Mundial - pode deter-me e encarcerar-me.

A regra simples, já utilizada implicitamente por todos os sistemas de governo globocêntricos (isto é, no laranja ou superior, incluindo a Alemanha, França, América, Inglaterra, Japão, etc) é a seguinte: no domínio do Lado-Esquerdo, pense o que quiser; mas no domínio do Lado-Direito, comporte-se fisicamente conforme a lei globocêntrica ou poderá ser afastado da esfera pública.

Como já dissemos, nas democracias ocidentais, a "lei da terra" é predominantemente laranja; nos últimos trinta anos, ela foi complementada com um número crescente de leis originárias da onda verde, incluindo leis de oportunidades iguais de trabalho, leis de direito à seguridade social e leis anti-ódio. Isto significa, por exemplo, que você está autorizado a odiar homossexuais (na privacidade de sua mente do Lado-Esquerdo), mas se expressa publicamente (Lado-Direito) esse ódio (por exemplo, através de discursos pregando a violência contra homossexuais), haverá penalidades. Assim, em muitas democracias ocidentais, a liberdade de expressão (um valor clássico laranja e, aqui nos EUA, uma liberdade assegurada pela Primeira Emenda) frequentemente é complementada com limitações à liberdade de expressão (um valor clássico verde: o verde deseja limitar a expressão que não esteja de acordo com seus valores). Meu ponto é que ambos expressam a regra implícita que formulei no parágrafo anterior.

Portanto, nesse aspecto, uma Federação Mundial não poderia ser diferente: podemos pensar o que quisermos; mas devemos nos comportar de acordo com as leis provenientes do centro de gravidade do sistema de governo, neste caso, amarelo. Isto é, os valores incrustados na "lei da terra" não seriam laranjas ou verdes, e sim amarelos ou integrais; não de primeira-camada, mas de segunda-camada. Do mesmo modo, embora, novamente, as pessoas estejam autorizadas a pensar ou acreditar no que desejarem (Lado-Esquerdo), seu comportamento público (Lado-Direito) seria regulamentado por padrões amarelos (ou superiores). Como a principal postura do amarelo é integrativa, isto significa que todos os sistemas de valores de primeira-camada teriam seu lugar respeitado, mas nenhum valor de primeira-camada estaria autorizado a colonizar outros.

Isto significaria, por exemplo, que a América estaria autorizada a desprezar o Iraque (na privacidade de seu espaço cultural, nacional, do Lado-Esquerdo). Entretanto, a América não estaria autorizada a atacar o Iraque (no campo internacional, público, do Lado-Direito).

Mas esta é apenas metade da história do que seria permitido a uma Federação Integral. De acordo com estimativas conservadoras e incontestes, Saddam Hussein matou aproximadamente duzentos mil curdos e outras duzentas mil pessoas de seu próprio povo, muitas vezes, após tortura, estupro ou através de gás venenoso. Uma Federação Mundial Integral, usando a força, se necessário, impediria todos esses atos. Nenhum deles se enquadra nos padrões amarelos e, por conseguinte, nenhum deles seria autorizado por leis mundiais amarelas. A invasão americana enquadra-se em padrões azuis-laranjas; e a ação de Saddam Hussein enquadra-se em padrões vermelhos. Nenhuma delas seria aceita por uma Federação Mundial Integral.

Além disso, não é necessário dizer que, se fossem apresentadas provas incontestáveis de homicídio em massa numa audiência da Federação Mundial, ela invadiria e policiaria o Iraque. Homicídio em massa em qualquer lugar viola valores globocêntricos. É permitido a Saddam Hussein odiar os curdos (na privacidade de sua mente de meme vermelho); não é permitido que mate duzentos mil deles com gás. Se ele fizesse isso, a polícia da Federação Mundial usaria ação militar para impedir que Saddam Hussein continuasse a fazê-lo, caso ele não parasse voluntariamente e desistisse imediatamente.

Pelas mesmas razões, eu pessoalmente acredito que, qualquer movimento de protesto que não proteste igualmente contra a invasão da América e contra o assassinato de quatrocentas mil pessoas por Saddam, é um movimento que não representa verdadeiramente a paz, ou a não-agressão ou valores globocêntricos.

Não tenho conhecimento de nenhum grande movimento que tenha protestado contra ambas as formas de violência, que tenha insistido numa fim imediato de ambas as agressões e oferecido um modo possível para sustá-las imediata e efetivamente, a fim de que nenhum lado possa dar continuidade a seus atos homicidas.

Isto é, infelizmente não tenho ciência de nenhum movimento integral de protesto no mundo.

Ao invés disso, há principalmente bolsões de azul, laranja e verde, uns na garganta dos outros. Não há dúvidas quanto aos valores do Sr. Bush: são essencialmente azuis-laranjas. Foram esses valores profundamente fundamentalistas e absolutistas que assustaram muitos outros governos (em particular os da França, Alemanha e Rússia); isto é compreensível. Tipicamente, a onda azul divide o mundo em bom versus mau e possui um inabalável (embora etnocêntrico) senso de certo e errado. O "eixo do mal" de Bush é o azul clássico. O pior que pode ser dito sobre a abordagem essencialmente azul de Bush é que ela é, de fato, profundamente etnocêntrica e imperialista. O melhor que se pode dizer dela é que cabe ao azul restringir o vermelho, e que os atos de Bush estão servindo à Espiral como um todo, erradicando bolsões de terrorismo vermelho.

A outra grande facção no debate está representando, essencialmente, valores do meme verde. A onda verde - denominada de "o self sensível" por Graves - deseja acabar com todas as guerras; portanto deve comportar-se como anti-guerra praticamente sob quaisquer circunstâncias. Como frequentemente é necessário guerrear para acabar com a guerra (por exemplo, a Segunda Guerra Mundial foi necessária para acabar com Auschwitz), o verde normalmente fica paralisado em face da real agressão mundial, insistindo em deitar-se na frente dos tanques nazistas, como se isso fosse detê-los. Mas enquanto o verde se vê protestando contra as agressões, sente-se relativamente feliz. O pior que pode ser dito desses protestantes é que são essencialmente "facilitadores de Saddam" (exatamente como Neville Chamberlain foi um facilitador de Hitler). O melhor que se pode dizer é que esses indivíduos servem à Espiral completa, sensibilizando mais pessoas contra os horrores da agressão.

Quanto aos líderes mundiais – algum diz algo que se assemelhe a uma visão integral? O único líder mundial que se aproxima um pouco, na minha opinião, é Tony Blair. Blair – praticamente sozinho, me parece – tem uma razoável consciência das variadas perspectivas e chega a conclusões (e a linhas-de-ação) baseando-se num quadro mais amplo. Ele insiste que a situação geral do Iraque seja ajustada num contexto de uma política de "duas nações", com respeito à Palestina e a Israel, "concedendo" assim às nações árabes algo em troca, por assim dizer (mas algo que deveria ser dado de qualquer maneira). Blair, quase sem ajuda, senta-se entre a América e a Europa, gritando para ambos: vocês não podem começar a competir e lutar entre si – este caminho leva a mais pesadelos do que possam imaginar. Blair, como o colosso de Rodes, tem um pé na América e outro na Europa e, heroicamente, parece ser o único líder mundial que tenta manter essa integração. Além disso, ele, solitariamente, está mantendo Bush orientado para a Organização das Nações Unidas (que é desprezada pelo meme azul americano). Nem pode ser acusado de "tentar proteger seus interesses em petróleo", porque a Inglaterra é uma exportadora líquida de petróleo. Sua visão tem sido consistente, disciplinada, apaixonada, mas imparcial. Na minha opinião, ele é a única pessoa com estatura de líder mundial; podemos imaginar o desastre que seria a campanha de Bush para manter o mundo unido, sem Blair. (Um aparte sem querer ser indelicado, mas não se consegue imaginar o que se passa na mente de meme amarelo de Blair quando ele se reúne sozinho numa sala com a mente de meme azul de Bush...). Não causa nenhuma surpresa que Blair venha sendo um autêntico pioneiro na política da "terceira via" (cf. A Theory of Everything), que é um dos primeiros movimentos sérios em direção a uma política integral, que una o melhor dos liberais e dos conservadores. Dada a situação real do mundo contemporâneo, a posição geral de Blair parece ser a melhor que, pragmaticamente, pode ser oferecida.

(Na minha opinião, o principal item que falta no ponto de vista de Blair, para não mencionar outros importantes líderes políticos, é algum tipo sofisticado de perspectiva desenvolvimentista que, resumidamente, é uma das cinco importantes dimensões de uma abordagem integral; ou seja, o aspecto dos "níveis" dos "quadrantes, níveis, linhas, estados e tipos". Um dos mais tristes efeitos não-integrais da liderança do mundo atual é o tumulto causado pelas democracias ocidentais, que acreditam poder plantar uma democracia de meme laranja, com laivos de sensibilidade de meme verde, no meio de um deserto de meme vermelho, e que ela germinará. Isto não é política mundial, isto é "João e o Pé de Feijão". Todo mundo nasce na estaca zero. A menos que haja uma saudável infra-estrutura azul – seja em guetos urbanos ou tribos do Oriente Médio – não existe lugar para a juventude vermelha ir; assim, ela acaba presa a uma estrutura de líderes guerreiros. Forçar "democracia" em tais culturas simplesmente resulta, como não poderia deixar de ser em qualquer lugar, na eleição livre de ditadores militares. Escusado dizer que este é um tópico complexo; novamente convido os leitores a consultar A Theory of Everything para uma visão geral, bem como o site integralinstitute.org)

O que me chama a atenção nos debates altamente emocionais sobre a guerra no Iraque é como todas as discussões estão profundamente imersas em disputas de valores de primeira-camada. Tanto os defensores azuis-laranja de Bush, quanto a mídia (e protestantes) laranja-verde, apresentam relatos extremamente distorcidos, tendenciosos e preconceituosos dos acontecimentos. Constantemente, fico perplexo com a estreiteza brutal de uma dada perspectiva, mesmo (e algumas vezes principalmente) quando se apresenta como cuidadosa, inclusiva e compassiva. Existe muita verdade em cada lado do debate, mas não a verdade completa, como ambos os lados clamorosamente afirmam possuir.

Anseio por uma discussão onde possa florescer uma abertura integral. Anseio por um grupo de líderes mundiais que possam vislumbrar um quadro maior, permitindo, realmente, que todos os sistemas de valores existam, mas que somente seja tolerado o comportamento globocêntrico. Anseio por esta boba visão utópica de uma Federação Mundial, onde "todos estão certos", mas somente se alguns estiverem mais certos do que outros (por exemplo, globocêntrico é mais correto do que etnocêntrico; vide Excerto B "Three Principles Helpful for Any Integrative Approach" [postado no site wilber.shambhala.com]). Anseio por liberdade e plenitude de consciência integral, compartilhadas pelo maior número possível de seres sencientes. Anseio por um tempo quando um valor integral não seja odiado pelo verde e pelo azul. Mas, ai de mim, parece que estou condenado a ansiar, basicamente, em isolamento.

Assim mesmo, o mundo deve fazer o que tem a fazer. Minha crença é que, neste século, assistiremos a atual Organização das Nações Unidas ser substituída, pacificamente, pelo primeiro movimento rumo a uma genuína Federação Mundial, impulsionada, particularmente, por ameaças globais, que não podem ser controladas em nível nacional (tais como terrorismo, política econômica e monetária mundial e problemas ambientais globais).

Acredito que a primeira Federação Mundial, provavelmente, será laranja-verde. Minha esperança é que seja o verde saudável, mas quem vai saber? Acredito que essa Federação Mundial Verde dará passos substanciais em direção à harmonia global, mas, no final, enfrentará as limitações e contradições inerentes às perspectivas de primeira-camada. Emergirá o equivalente a uma polícia-do-pensamento-politicamente-correto mundial - uma Inquisição verde, se preferirem - cujas brutalidades sutis, acompanhadas por uma série de acontecimentos extremamente desagradáveis, levarão uma Federação Mundial de segunda-camada, amarela, a assumir o poder. Mas isto, creio, será daqui a um século ou mais.

Até então - e considerando que hoje nenhum governo, nenhum movimento de protesto e nenhuma política nacional ou internacional são integrais - somos forçados a perguntar: o que, pessoalmente, posso fazer, em face das terríveis circunstâncias atuais? Aqui, somente posso repetir o que disse em meu comentário anterior, e o faço com profunda convicção:

Infelizmente, o mundo necessita de ação integral. Infelizmente, não a conseguiremos, indo ou não à guerra. Assim, é melhor acender uma vela do que reclamar da escuridão. Portanto, trabalhemos em nós mesmos e tentemos aumentar nossa própria consciência integral, um passo a cada dia, de modo que, no final, deixemos o mundo um pouquinho mais inteiro do que o encontramos…

1ª versão: 14 de abril de 2003
2ª versão: 16 de abril de 2003 (novo: Tony Blair como um líder mundial "integral")
3ª versão: 16 de abril de 2003 (novo: principal ponto fraco da política de Blair)

  1. Falando sobre Tudo, CD duplo com entrevista de Ken Wilber. (N.T.)
  2. TQTN é a abreviatura em Português para a Matriz Integral de Wilber: "Todos os Quadrantes, Todos os Níveis, Todas as Linhas, Todos os Estados, Todos os Tipos". Em Inglês, AQAL - "All Quadrants, All Levels". (N.T.)
  3. Na terminologia dos Quatro Quadrantes, o Lado-Esquerdo corresponde aos aspectos interiores (intencionais e culturais) e o Lado-Direito, aos aspectos exteriores (comportamentais e sociais). (N.T.)



Tradução de Ari Raynsford (ari@interair.com.br)