A Desconstrução do World Trade Center

Uma Data que Viverá numa
Cadeia Deslizante de Significantes

Ken Wilber

Antes de ler este texto, por favor leia a "Introdução", apresentada anteriormente, ou muito do que se segue não fará sentido. Obrigado. (K.W.)

Duas semanas após o despertar no Clube Passim, terroristas ligados a Osama bin Laden seqüestraram quatro aviões comerciais americanos e os lançaram, de maneira suicida, sobre o World Trade Center e o Pentágono, matando milhares de pessoas e chocando o mundo. Por causa da moderna capacidade de comunicação global e da alarmante gravidade do ato, nunca na história um acontecimento despertou uma consciência coletiva mundial de tal magnitude. De Manhattan a Moçambique, da Indonésia a Istambul, de Lisboa ao Líbano, do Quênia a Kiev, cerca de quatro bilhões de pessoas se uniram, se não em suas opiniões sobre o ato, pelo menos em completo assombro. "Inacreditável, inacreditável, inacreditável!" balbuciou um aturdido Yasser Arafat, falando pelo mundo.

Por misteriosos caminhos que não consigo explicar, encontrei-me, instantaneamente, na presença de meus professores do Centro Integral (CI), enquanto jantavam, vários dias após o evento. Mark, Charles, Lesa, Carla, Derek, Margaret e a querida Joan.

Eu acabara de completar vinte e um anos; as repercussões dos estranhos acontecimentos no Clube Passim ainda ecoavam numa alma estilhaçada que nem sequer conseguia lembrar o próprio nome; as datas e fatos da realidade diária também escapavam à minha consciência, como se tempo e espaço perdessem densidade e tendessem a evaporar, se eu não prestasse cuidadosa atenção. E assim mesmo, inexplicavelmente, aqui estava eu, com pessoas que velaram a minha morte e, miraculosamente, ressuscitaram-me para uma vida que ia além da vida e da morte. Este vinte-e-alguma-coisa devia a esses cinqüenta-e-alguma-coisas muito mais do que se possa imaginar; palavras significativas fugiam do meu controle e flutuavam no vazio cósmico, lar de uma escuridão que se mostraria como um chamado à revelação.

Parte I: Um Espectro de Consciência

"Uns poucos momentos de silêncio, se pudermos," disse Charles Morin. O ambiente estava tranqüilo, com uma completeza que não era deste mundo.

"Naturalmente, a pergunta vem à baila: o Centro Integral deve fazer algum tipo de declaração a respeito desta revoltante tragédia?," Morin finalmente perguntou após vários minutos de infinita quietude. "Devo dizer que tenho duas posições sobre o assunto. Por um lado, a resposta parece-me simples: foi uma demonstração de maldade. Por outro, como vocês todos sabem, é muito, mas muito mais complexo do que isso. Assim, embora uma declaração pareça obrigatória, estou hesitante em dá-la."

"Surpreendeu-me," respondeu Margaret Carlton, "como o mundo – praticamente o mundo inteiro – respondeu a esta tragédia. Devo dizer que foi muito, muito tocante. Primeiro, obviamente, suas preces estão sendo endereçadas aos mortos e seu coração chora pelas famílias e amigos. Ah! A saudade, a inexprimível saudade!" A transparente, frágil Margaret Carlton de porcelana, naquele momento, lembrava uma daquelas imagens da Virgem Maria, ou talvez, de Kwan Yin. Lesa fitou-a com uma ternura que palavras – pelo menos minhas palavras – não podem exprimir.

"Mas tendo a concordar com Charles," ela continuou. "A situação real é tão complexa que uma simples declaração seria supérflua. Muitas declarações que tenho visto" – a determinação de Carlton substituiu uma certa delicadeza – "são, podemos dizer, sentimentos de um meme específico. É difícil saber como prosseguir sem ofender ninguém."

"Sim, esta é parte da dificuldade," falou Derek Van Cleef, e já se podia sentir sua intensa impaciência com a situação. Van Cleef era como o bobo da corte: sempre via a sombra, mas sempre a exprimia através de sua própria raiva. "O povo deste país, que está reagindo com tanta emoção a este acontecimento, não está, realmente, preocupado com a perda de vidas humanas, ou mesmo a morte de americanos. Afinal, 50.000 americanos morrem anualmente em acidentes de trânsito e não vejo nenhuma dessas pessoas parada nas esquinas com cartazes dizendo 'Suspendam a Matança!' Ou pior, o mesmo número de pessoas – 50.000 delas, a maioria crianças – morre diariamente de fome em todo o mundo, e onde estão os chorosos protestantes? Eles não estão preocupados com vidas humanas; não, estão reagindo porque seu particular conjunto de valores foi atacado, profundamente ameaçado, e suas respostas dependem do sistema de valores a que estão mais apegados: vermelhos vêem uma coisa, azuis, outra, laranjas, outra, verdes, ainda outra. Mas quando aqueles aviões chocaram-se contra o WTC, eles, na verdade, estavam indo de encontro aos diferentes conjuntos de crenças e valores: os terroristas não ameaçaram somente vidas humanas, mas os valores do meme com que cada um mais se identifica."

"Bem, Derek, esta é uma colocação muito fria – e quem poderia supor que seria sua?" ironizou Jefferson. Todo mundo riu, mais ou menos afetuosamente, da natural falta, bem, de calor de Van Cleef; eu ia dizer 'nobreza'.

"Mas, em tese, concordo com você", continuou Jefferson. "Assim, por que não elabora um pouco mais? Por que não discorre rapidamente como cada nível de consciência, ou cada meme, responderia, em geral, ao ataque terrorista?"

Vermelho: Ira e Vingança

Van Cleef colocou seu garfo no prato e falou decididamente. "Está bem. Por agora, simplesmente resumirei os diferentes tipos de respostas ao ataque – NÃO falarei sobre as várias causas do ataque, como distribuir a culpa, e assim por diante. Sem concluir que qualquer dessas respostas esteja certa ou errada, o ponto é que cada meme, estágio ou onda de consciência reage muito diferentemente quando atacado de tal modo."

"Comecemos pelo vermelho, o mais fácil de entender. Eis aqui um diálogo simulado," Van Cleef começou a rir.

Repórter: Sr. Vermelho, estou curioso para saber o que o senhor pensa sobre o ataque terrorista ao World Trade Center e ao Pentágono.

Vermelho: Saia do meu caminho, seu chato; vou comer alguma coisa. Me deixe em paz.

Repórter: Não vai demorar muito.

Vermelho: Hum... Desembuche.

Repórter: O ataque. Sobre o World Trade Center.

Vermelho: Mate eles, eu diria.

Repórter: Mate eles? Importa-se em explicar um pouco melhor, senhor?

Vermelho: Sim. Mate eles muito.

Repórter: Mate eles muito? Certo, certo. Diga-me, na sua opinião, por que eles o fizeram? Os terroristas.

Vermelho: Hum, o quê?

Repórter: Qual a razão para terem atacado?

Vermelho: Punheteiros desgraçados, escória de comunistas. Mate eles cruelmente. Se mexerem conosco, arrancaremos suas malditas cabeças e exibiremos elas em estacas; isso é o que vamos fazer. Agora, deixe-me comer.

Repórter: Na verdade, senhor, eles são fanáticos religiosos e não comunistas. Com certeza, o senhor sabia disso?

Vermelho (segura o repórter pelo colarinho e o levanta do chão): O que é isso? Talvez eu devesse colocar sua cabeça num torno e apertar ela até que seus olhos pulassem das órbitas. O que o senhor diz sobre isso, seu repórter espertinho?

Repórter: Escória de comunistas, mate eles cruelmente, é o que eu digo.

Todos sorriam para Van Cleef. "É claro que estou exagerando. O fato é que o vermelho sadio é o motor de muitas mudanças. É o derrubador de obstáculos por excelência; recusa fronteiras, destrói barreiras. O vermelho é um servo fantástico mas um senhor terrível. Umas coisa é ter vermelhos a seu serviço, outra coisa é ter somente vermelhos como seu centro de gravidade. Ainda outra coisa é ter vermelhos escondidos embaixo da camisa – como, por exemplo, faz boomeritis – dirigindo seu carro sem você saber, desconstruindo qualquer fronteira convencional que esteja à vista, seqüestrando sua filosofia para apoiar seus modos egocêntricos."

"Mas, resumindo, a resposta vermelha básica é ira e vingança. O ataque terrorista é visto, consciente ou inconscientemente, como um ataque – NÃO à humanidade, não à civilização, não ao meu país ou a Deus, mas um ataque a MIM – e eu responderei esmigalhando seu crânio. Mais ou menos isso." Van Cleef continuava a rir, agora aparentando um bom humor genuíno.

Azul: Bem versus Mal

"Quando vamos para o azul, uma estrutura cognitiva mais complexa começa a apresentar razões ponderadas para suas ações; mas, incapaz de avaliar as nuanças de múltiplas perspectivas, define absolutos autoritários e dogmáticos: tenho o bem do meu lado e, portanto, o ataque é um exemplo do mal, pura e simplesmente. De modo geral, esta onda afirma que nós, Americanos, somos bons, decentes, amantes da liberdade, tementes a Deus, amantes da justiça e que os terroristas são fundamentalmente satânicos, demoníacos, desumanos, maléficos. Nós estamos certos e eles, errados, e pronto. Este é um exemplo simples do bem contra o mal. Assim sendo, você está conosco ou está contra nós nesta cruzada para livrar o mundo da escuridão. Devemos nos manter coesos neste único caminho verdadeiro, pois unidos venceremos, divididos seremos derrotados; unidos na nossa crença em que a América é o maior país do mundo e nós somos filhos de Deus e, portanto, caçaremos aqueles responsáveis e os mataremos, opa, quero dizer, aplicaremos a justiça." Van Cleef levantou os olhos e sorriu gentilmente. "Isto encerra a leitura do dia das Escrituras." Ele piscou os olhos, mas ainda de um modo calmo e delicado. "Bem, vocês entenderam o que quis dizer. As respostas comuns do meme azul incluem aquelas de William Bennett, de Billy Graham, da maioria dos líderes religiosos exotéricos, aqui e no exterior, e de muitos conservadores e Republicanos. O Papa deu uma entrevista sem precedentes, dizendo aos Americanos que 'o mal não terá a última palavra.' Puxa – vocês vêem? – ele está do nosso lado, não do deles!"

Hazelton demonstrou leve irritação – ela sempre discutia com Van Cleef – e falou. "Tudo que você disse é verdadeiro, Derek, mas devo dizer-lhes, queridos amigos, como fiquei surpresa ao sentir uma boa quantidade de azul ecoando em mim." Joan sorriu gentilmente. "Senti-me sufocada ao observar como os Americanos amam os Americanos. Depois, fiquei realmente emocionada ao ler as condolências do mundo inteiro. Uma semana antes, a América era somente o Bandido para o resto o mundo: éramos a McCultura, arruinando os valores locais, ou o Grande Satã, ou ainda o insípido Capitalismo Global destruindo a liberdade em toda parte – éramos considerados racistas, imperialistas, porcos dominadores." Ela começou a rir. "Não estou dizendo que não haja alguma verdade nessas acusações, mas sim que, daqui por diante, será impossível pensar que a América é simplesmente, meramente, somente O Bandido. Pelo amor de Deus, Yasser Arafat doou seu próprio sangue para demonstrar 'solidariedade pela América.' O representante europeu Romano Prodi declarou: 'Nas horas mais escuras da história européia, a América esteve ao nosso lado. Hoje, estamos ao lado da América.'"

Subitamente, irromperam lágrimas nos olhos de Joan. Ela sorriu e as secou. "Percebem o que quero dizer? E isto continua. A França, que nunca morreu de amores por nós, destacou pilotos franceses em jatos Mirage, pronta para apoiar-nos; o Primeiro-Ministro francês disse: 'À luz dos acontecimentos, sentimo-nos órfãos' – isto é, até a França se sente órfã sem a América. A Rússia colocou sua rede de inteligência em nosso auxílio. A Inglaterra teve um dia de luto com o povo cantando o hino americano; lírios brancos foram amarrados na cerca da Embaixada Americana em Grosvenor Square. Vocês souberam que a Rainha – a Rainha, pelo amor de Deus – Sra. Mornidão – pela primeira vez na história cantou o hino nacional de um outro país em público, e com os olhos marejados de lágrimas?! Em Kiev, o povo depositou flores na porta da nossa embaixada; uma mensagem dizia: 'Não ao terrorismo em nome de toda Kiev.' As bandeiras foram postas a meio-pau em países do mundo inteiro. Um editorial canadense, escrito há vários anos, foi desenterrado, atualizado e posto em grande circulação: 'Este canadense pensa que chegou o momento de falar pelos americanos como o mais generoso e, possivelmente, menos apreciado povo de toda a Terra. Posso enumerar 5.000 vezes em que os americanos correram para ajudar outros povos em dificuldade. Vocês podem citar-me uma única vez em que alguém correu para ajudar americanos em dificuldade? Nossos vizinhos americanos enfrentaram as dificuldades sozinhos e eu sou um canadense que estou cansado de vê-los chutados. Mantenha-se orgulhosa, América!'" Ela levantou os olhos, ainda marejados de lágrimas. "Pergunto, isto não atinge vocês?"

"É claro, querida, é claro," respondeu Lesa. Cabeças moveram-se em concordância. Olhei para Van Cleef, cuja expressão, por outro lado, parecia dizer: 'Oh, engula isso, sua piegas,' mas, provavelmente, foi só minha imaginação.

"Olhe," Van Cleef finalmente falou, "a grande questão é que, se você for suficientemente feliz de ter algum tipo de conscientização de segunda-camada – para não dizer de terceira-camada – você pode e deve entrar em ressonância com todos esses acordes, inclusive o azul. A pergunta é: você se identifica exclusivamente com um único meme de primeira-camada e sua respectiva resposta, ou você amplia o espectro? E Joan, eu sei. Você é turquesa até os ossos. Lesa acha que você é coral, ou talvez alguma outra cor que ainda não inventamos."

"Bem, estes ossos estão meio azuis por agora!" Ela riu.

"Então, Derek, por que não continua pelo seu passeio memético?"

"Certo, certo. Bem, o azul, o querido azul na bandeira vermelha-branca-e-azul, é o vínculo etnocêntrico e não há nada de errado nisso.É maravilhoso na medida que for somente um acorde numa sinfonia de espectro total, certo?"

Laranja: Um Ataque à Civilização

"Assim, vamos ver rapidamente o laranja, ou o que poderíamos chamar de resposta de Ayn Rand: esta onda de consciência vê o atentado não como um ataque a um povo, nação ou divindade específicos –todos esses etnocêntricos – mas sim como um ataque globocêntrico à liberdade e à justiça. Para não mencionar um ataque ao capitalismo de mercado-livre, a principal força positiva do mundo de hoje! Os laranjas seriam rápidos em afirmar que os terroristas não atacaram uma igreja ou mesmo o Congresso: eles escolheram a região de Wall Street e o World Trade Center. Em outra palavras, isto seria visto pelos laranjas não como um simples ataque à América, mas como um ataque à própria civilização, independentemente de países ou divindades em particular."

"Observem que a resposta laranja, devido a um novo crescimento da complexidade e sofisticação cognitivas, já foi do etnocêntrico (associação-mítica) para o globocêntrico (formal-universal); por isso, ela não mais apela para um povo, nação, raça, grupo ou cultura particulares. Ao contrário, é pós-convencional neste sentido: o ataque é visto como uma ameaça aos valores que as pessoas do mundo inteiro podem adotar, independentemente de religião, raça, sexo ou crença. Nem todos podem ser americanos, mas todos podem ganhar dinheiro, ser capitalistas, aspirar a um tipo de independência, valorizar um tipo de liberdade – e, portanto, este foi um ataque, não à América, mas à civilização. Novamente, não estou afirmando que isto esteja certo ou errado; simplesmente, estou descrevendo alguns modos gerais como o ataque terrorista foi visto por diferentes ondas de consciência."

"David Kelley, diretor executivo do Objectivist Center nos dá uma resposta clássica e muito letrada do meme laranja. ´Com rara unanimidade, os americanos compreenderam que este foi um ataque a seus valores; e foi. Mas os valores não são unicamente americanos, ou mesmo, unicamente ocidentais. Eles são os valores da vida civilizada em qualquer parte. Como tal, este foi um ataque à civilização.' Mas o que Kelley quer dizer com 'valores civilizados' significa basicamente valores do meme laranja, uma vez que ele dá os seguintes exemplos: individualismo; liberdade e direitos individuais; capitalismo como um sistema de negócios, produção, inovação e progresso; secularismo; mercado livre; comércio mundial. Obviamente, estes não são valores vermelhos, nem azuis, nem verdes, nem turquesas : são valores laranjas. Portanto, um ataque ao WTC foi um ataque a esses valores, que Kelly identifica com a civilização per se. Ele, então, conclui com um ardoroso apelo: 'Não estamos tratando com pessoas civilizadas. Devemos declarar guerra aos terroristas e usar qualquer tipo de força que se faça necessária para torná-los incapazes de nos impor novas ameaças. Conclamamos o Presidente Bush e o Congresso a assumir uma campanha similar contra quaisquer redes de terroristas que se declarem, pelas mortes e destruição que tenham infligido, inimigos da humanidade. Ao fazê-lo, estaremos agindo em nossa própria defesa com a autoridade moral de quem foi atacado. Mas devemos entender, e declarar ao mundo, que estamos agindo para preservar a ordem mundial, da qual dependem os valores civilizados, e que os povos civilizados do mundo inteiro devem unir-se a nós nesta causa.'"

"Vocês sabem o que mais amo em Deus?" Margaret Carlton interrompeu abruptamente a narrativa de Derek, depois olhou para cada um com um sorriso sonhador, sugerindo que estava… noutro lugar. "O quê?", perguntou Lesa.

"O Espírito manifesta-se neste extraordinário espectro de consciência, certo? Esta maravilhosa espiral de desenvolvimento, abrangendo cada amplitude, cor, faixa e comprimento de onda concebíveis, espalhando-se por todo o caminho, do pó à Divindade. E cada cor única tem seu lugar, não? Cada meme, cada onda, cada volta, cada viravolta, cada guinada – todos têm algo importante a dizer, não têm? Não têm?"

Todos concordaram, aparentemente sem saber a que isto os levaria, mas tocados pela frágil graça e gratidão de Carlton. "Isto é tudo. Simplesmente queria dizer isto. Sei que o azul, o laranja, o verde e todos os outros podem ficar realmente doentes, realmente esquisitos, realmente estúpidos, mas em suas formas saudáveis são todos parte deste belo, belo, belo espectro de consciência, não são? Não são?"

"Você é linda, querida," respondeu Lesa, apertando sua mão.

"Certo, certo, muito legal, Margaret," cortou Van Cleef. "Alguém mais quer ponderar sobre as maravilhas de Deus? Não? Está bem." E sorriu um genuíno sorriso 'eu só estou brincando'.

Carla Fuentes olhou para ele. "Derek, você é o homem mais doce do mundo, pelo menos para… bem, pelo menos para você mesmo."

Verde: Uma Transvalorização de Valores

"Muito engraçado, Carla, muito engraçado. Observe-me rindo. Ha, ha, ha. Muito bem, vamos em frente… Onde eu estava mesmo? Vermelho, azul, laranja, oh sim…"

"A resposta do verde é a mais difícil de classificar porque é, de longe, a mais conflitante. Por um lado, a maioria das atitudes do meme verde em todo o mundo, neste momento, está infectada pelo Meme Verde Mau e por boomeritis; isto complica seriamente a matéria, porque dificulta a localização do verde sadio e dos tipos maravilhosos de gentilezas que sempre traz consigo. A maioria dos verdes – e certamente o MVM (Meme Verde Mau) em seu disfarce pós-moderno – quer culpar a América, virtualmente, por todos os problemas do Terceiro Mundo, e, freqüentemente, por todos os problemas do mundo, ponto."

"Mais ainda, nas últimas décadas, os vários grupos, facções, insurgentes e mesmo terroristas do Terceiro Mundo adotaram o jargão pós-modernista proveniente das universidades americanas para justificar suas ações. O pluralismo verde afirma em suas formas radicais – e mais comuns – que, culturalmente, não há bom ou mau, melhor ou pior: não existem padrões universais que permitam julgar uma cultura como sendo melhor ou pior do que outra. Na realidade, não podemos dizer nada sobre um Outro que este Outro não diria de si mesmo. Ponto. Tentar falar sobre o Outro em termos diferentes dos do Outro é cometer um terrível crime conhecido como 'metanarrativa'. Portanto, todos os valores culturais são essencialmente iguais – isto é chamado de "uma pluralidade irredutível de objetivos' – e a única resposta em face do Outro é de pura igualdade."

"Até que o Outro bombardeie seu maldito país da maneira mais abominável que se possa imaginar." Van Cleef olhou para todos os presentes, a severidade marcando sua face. "Normalmente, isto leva o verde a um paroxismo interno e a um doloroso espasmo de valores. Com certeza, o verde acha que este ataque brutal foi, bem, muito mau, mas não se esperava nenhuma maldade. E, de repente, a cultura ocidental é maldosamente atacada por algo que se suspeita ser MAU. Mas só deveria existir 'uma pluralidade de objetivos autênticos', nenhum deles inerentemente superior (exceto todos que são não-ocidentais, uma vez que são superiores de todas as maneiras – exceto que o pluralismo e multiculturalismo pós-modernos surgem somente na cultura ocidental – epa; assim, talvez possa dizer que o pluralismo pós-moderno está simplesmente restabelecendo a harmonia primal presente em todas as tribos pré-modernas – exceto que uma tribo pré-moderna acabou de desconstruir o World Trade Center e isso não pode ser bom, pode? – exceto que obtive minha estabilidade acadêmica por escrever dois livros e quinze artigos sobre o Crime do Iluminismo e sua imposição hegemônica, patriarcal, capitalista, colonialista, imperialista sobre os povos paradisíacos, não-dissociados, amantes da liberdade do mundo pré-moderno, assim não fica bem mudar publicamente de opinião, não é? – exceto que…)."

"Bem, vocês entenderam o que quero dizer. Estou sendo irreverente, e não deveria, porque esta é uma tensão interna realmente angustiante para muitos verdes. Nietzsche costumava referir-se a uma 'transvalorização de valores', onde algo que parece ser mau passa a ser visto como bom e algo que parece ser bom passa a ser visto como mau. Bem, quando aqueles aviões chocaram-se contra o WTC, muitos memes verdes sofreram uma excruciante transvalorização de valores: a civilização ocidental passou a ser considerada vítima e os valores não-ocidentais, e mesmo a mentalidade tribal – que se supunha abraçar tudo que é bom, do selvagem nobre ao Outro da civilização reprimida – foram subitamente considerados como algo mau. Isto é chamado Excedrin – dor de cabeça nº 7."

Sorrindo, Jefferson complementou, "Sim, em tese acho que você está certo. E está completamente certo sobre as justificativas acadêmicas para atos terroristas, isto é, pela 'resistência radical às estruturas de poder das civilizações repressoras': nas últimas três décadas, a insurgência e o 'terrorismo desconstrutivo' do mundo inteiro adotaram o jargão pós-moderno das universidades americanas a fim de justificar suas ações. Anteriormente, eles usavam o jargão marxista, ou o jargão anticapitalista, ou um distorcido jargão religioso – algumas vezes, ainda os usam. Mas os mais eloqüentes – os Michel de Certeaus, os Edward Saids e os Slavoj Zizeks deste mundo – apóiam-se fortemente, agora, na linguagem do pós-estruturalismo pós-moderno, a linguagem do relativismo pluralista, isto é, a linguagem de boomeritis."

"Isto é muito parecido com os protestos dos estudantes de Berkeley dos anos 60, sobre os quais Carla nos falou em suas aulas, quando um conjunto de verdadeiros ideais pós-convencionais foi seqüestrado por um bando de egocêntricos terroristas pré-convencionais, com o intuito de desconstruir agressivamente tudo que fosse convencional. É a falácia pré-pós numa escala mundial – sim, é boomeritis até os ossos."

Jefferson olhou em torno da mesa. "Eis aqui a triste verdade do nosso tempo: boomeritis tornou-se a linguagem do terrorismo." Ele parou e balançou a cabeça. "Adicione esta linguagem àquela do fanatismo religioso e você obterá uma mistura explosiva que nunca houve em toda a história."

"Isto é particularmente doloroso para mim como afro-americano. Todos conhecemos a gênese do pluralismo pós-moderno – suas muitas qualidades, suas muitas fraquezas. Porém, quando o meme verde, o relativismo pluralista, o pós-estruturalismo pós-moderno – chamem do que quiserem – mudou-se para a academia e começou a dominar as ciências humanas, foi apenas uma questão de tempo antes que esses "radicais com estabilidade" – algumas vezes inocente e inadvertidamente, outras vezes aberta e intencionalmente – começassem a forjar a linguagem que seria usada para justificar a 'insurreição' terrorista, a 'resistência radical ao poder' e a 'desestabilização desconstrutivista' em toda parte. Quando a justificativa acadêmica para esses atos – uma justificativa proveniente do meme verde (e de boomeritis) na América – foi combinada com os verdadeiros terroristas do meme vermelho, o resultado foi uma atmosfera na qual a elite da cultura ocidental não pôde condenar decisivamente qualquer tipo de insurreição desconstrutivista, uma abertura ideológica aproveitada pelos insurretos e terroristas, que sempre igualaram a chamada 'sensibilidade' à fraqueza. Tudo que eles precisavam em suas próprias mentes para explodir o barril de pólvora era uma razão igualmente enganosa para atacar e desconstruir, que foi fornecida por um meme azul distorcido: no caso, o fanatismo religioso."

"Há aqui também uma ligação estrutural psicossocial," continuou Jefferson. Kim disse que o QI de Jefferson é 160; parece que esta é a velocidade do seu intelecto correndo na estrada. Sempre fiquei tonto observando sua pele de ébano que abriga aquele cérebro trafegando por essa estrada numa velocidade enervante. Gostaria que Kim estivesse presente para explicar tudo para mim.

"Psicologicamente, boomeritis é o meme verde infectado por uma reativação do narcisismo vermelho. Assim, tendências inerentemente subjetivistas dos verdes – Graves alguma vezes refere-se a eles como 'relativistas, pluralistas, subjetivistas', simplesmente porque suas justificativas para a verdade são basicamente subjetivas, relativas, múltiplas: em outras palavras, pós-modernas – de qualquer modo, tendências subjetivistas dos verdes tornam-se um ímã, um lar, um porto seguro para uma reativação dos impulsos narcísicos, egocêntricos, vermelhos. O pluralismo torna-se um supermagneto para o narcisismo – e esta combinação de verde altamente desenvolvido com vermelho muito pouco desenvolvido é a mistura explosiva conhecida como boomeritis, porque na minha própria mente ideais verdes tornam-se o porta-voz do terrorismo vermelho."

"Sob essas circunstâncias, os ideais verdes de contextualismo, construtivismo e pluralismo – que no que têm de melhor insistem que todas as perspectivas sejam tratadas com justiça e imparcialidade, sem a marginalização de nenhuma – rapidamente degeneraram para um pluralismo rançoso, até mesmo patológico: todas as visões devem ser tratadas com justiça, não porque mereçam um tratamento justo, mas porque nenhuma visão é melhor do que outra, ponto. O narcisismo e sua eterna pretensão de que 'ninguém vai me dizer o que fazer' finalmente encontra um lar feliz na flatland pluralista pós-moderna. Uma vez que nenhuma visão é melhor ou pior do que outras, minhas inclinações narcísicas podem transitar livremente aqui, neste porto seguro suprido pelo pluralismo patológico. Na minha cabeça, o verde foi seqüestrado pelo vermelho terrorista. Na minha cabeça, ideais pós-convencionais transformaram-se em jargões de impulsos pré-convencionais. Na minha cabeça, o World Trade Center dos meus mais altos ideais foi desconstruído por minhas mais baixas e selvagens inclinações."

"Este é o pós-modernismo boomerítico – um secreto caso de amor entre o verde e o vermelho – que se desenvolveu de uma maneira específica no estágio histórico atual do mundo: acadêmicos verdes pós-modernos, reativando e nutrindo inflamados impulsos vermelhos pré-modernos em suas mentes, apaixonaram-se por todas as culturas pré-modernas: no passado – os grandes Paraísos do Éden terrivelmente contaminados pela opressão patriarcal ocidental – e no presente, por todos os Outros fora do Iluminismo, lutando para libertar-se do cobertor repressor da civilização. Grande parte da série de seminários que concluímos recentemente foi devotada a uma análise minuciosa deste tópico. Obviamente, não estou afirmando que o Iluminismo não tivesse seus graves problemas. Estou dizendo que os acadêmicos verdes estavam predispostos a elogiar as culturas vermelhas de modo exagerado e fantasioso, simplesmente porque estavam fixados, e mesmerizados, em impulsos vermelhos do seu próprio ser. O narcisismo ostentatório dos Boomers aflorou da maneira mais embaraçosa, deixando uma trilha de infortúnios boomeríticos verde-vermelhos em todas as salas da academia."

"E aí está, muito simplesmente, por que boomeritis transformou-se na linguagem da desconstrução, da destruição, do terrorismo em toda parte. Ela não pôde suprir uma distinção convincente para separar aquilo que era progressivo daquilo que era meramente regressivo – e nesta triste e indiferente indecisão repousa um dos muitos caminhos que levaram ao 11 de setembro."

Todos à mesa ficaram em silêncio por vários minutos. "Sim, infelizmente, infelizmente", Carla Fuentes balançou a cabeça suavemente. "Deste ângulo particular, você está absolutamente certo: boomeritis foi profundamente cúmplice na desconstrução do World Trade Center." Fuentes olhou para cada um de nós, um a um. Suas tristes palavras foram pronunciadas numa voz melancólica, sem ódio, quase meiga.

"Até mesmo Foucault não chamou Derrida de terrorista? Quando o resultado líquido de sua reflexão acadêmica desemboca em: não existem padrões universais pelos quais qualquer cultura possa ser julgada inferior a outra; o Ocidente, sob a influência do Iluminismo, tornou-se simplesmente uma hegemônica imposição imperial dos padrões absolutistas universais sobre o mundo inocente; portanto qualquer coisa do Ocidente é má, qualquer coisa do Oriente é boa; donde desconstruir o Ocidente e o Iluminismo é a coisa nobre a ser feita – bem, quando seu pensamento é atingido por falácias pré-pós de tal magnitude, elas criam uma atmosfera intelectual na qual aplaude-se, implicitamente, qualquer terrorismo desconstrutivo; quando um famoso pluralista pós-moderno brada 'Se você não for branco, afaste-se o quanto puder de qualquer cultura ocidental!' – fico pensando se o Afeganistão é suficientemente longínquo para este senhor – bem, naturalmente toda esta atmosfera acadêmica é cúmplice de tais ataques terroristas. Os pós-modernistas radicais não são a real causa de quaisquer desses crimes, mas são cúmplices, são profundamente cúmplices." Carla Fuentes balançou sua cabeça.

O lado contundente de Van Cleef cortou o ar; ele aparentava estar mais furioso do que o normal. "A lista desses cúmplices é infindável – isto é, a lista de eruditos da boomeritis com sangue filosófico em suas mãos é verdadeiramente interminável: começando com Heidegger – e podemos lembrar agora sua infame e impenitente cumplicidade com os Nazistas – e seus camaradas de filosofia, Foucault no início, a maior parte de Derrida, Wittgenstein no fim, os subprodutos e imitadores – Michel de Certeau, Richard Rorty, Edward Said, François Lyotard, Jean Baudrillard, Ernesto Laclau e Chantal Mouffe, Slavoj Zizek, Antonio Negri e Michel Hardt, a turma francesa e seus mornos e menos talentosos porta-vozes americanos – Stanley Fish, Susan Sontag, Stanley Aronowitz, os movimentos alternativos, do 'New Birth in Freedom' do JTP ao Revisioning TP Psych, à espiritualidade boomerítica e ao MVM (Meme Verde Mau) em toda sua glória, a hipocrisias anti-hierárquicas enchendo o ar com sua fedorenta presunção autocongratulatória, aos últimos aprendizes de filósofos avant-garde, todos gritando batidos slogans pluralistas." Van Cleef cuspia as palavras numa torrente incessante; seus colegas, embora não discordando, sentiam-se desconfortáveis, especialmente Joan.

"Não me canso de repetir," continuou, "que em grande parte desses casos há verdades muito importantes – freqüentemente as usamos aqui no Centro Integral – e na maioria deles, as intenções são tão cordiais, tão genuínas, tão nobres. Mas todos sabemos que tipos de estradas são abertas com boas intenções. Na contabilidade cármica do Kosmos, a chuva da responsabilidade encharcará essas cabeças acadêmicas."

"Como sempre, colocado de maneira doce e gentil", sorriu Fuentes. "Mas, no geral, concordo. Alguém mais concorda?" Cabeças, em torno da mesa, aquiesceram.

"Sinto que o problema real é que seus sentimentos, vestidos como filosofia, apareceram no mundo como uma grande moda, orgulhosamente anunciada. O ponto essencial é que boomeritis drenou a capacidade dos intelectuais para formular uma condenação coerente de tais ataques, além da réplica capenga de que ninguém tem o direito de atacar fisicamente o outro – aparentemente, sua resposta foi que explodir a droga de outras pessoas não é amável e delicado." Fuentes riu no seu modo doce e malicioso. "Mas fora isso, por que o Outro não deveria retaliar em face do barbarismo repressor da cultura iluminista-ocidental? Bem, boomeritis e o o MVM estão estranhamente silenciosos, não? A única coisas que curto-circuitou seu silêncio filosófico foi a massiva brutalidade, acima dos limites, desse ato específico."

Morin concordou. "Sim, Carla está certa. Se qualquer bando de terroristas tivesse escolhido um alvo menor, atingido somente militares ou funcionários do governo, e, em seguida, liberado uma declaração sobre o esmagamento da liberdade e igualdade de todas as culturas pela cruel Máquina Capitalista, a maioria dos memes verdes deste país rapidamente concordaria – ou, no mínimo, se recusaria, absolutamente se recusaria, a julgar que esses terroristas estivessem ERRADOS. Mas a gravidade e selvageria do ataque ao World Trade Center enfiou essas idéias goela abaixo, de modo que é quase impossível disfarçar o fato e desculpá-lo com platitudes pluralistas." Morin balançou a cabeça.

"Realmente, é um problema imerso em grande confusão," disse Jefferson. "Muito parecido com aquele quando o Unabomber matou e mutilou dezenas de pessoas inocentes em nome da ecologia versus civilização – outra dicotomia completamente falsa – e Kirkpatrick Sale – sob a influência da mesma falácia pré-pós e da mesma boomeritis – imediatamente apareceu para defender a filosofia do Unabomber, ao mesmo tempo que, de maneira não muito convincente, disse que isto não significava que apoiava seu ato."

Margaret Carlton, a aparência frágil sustentada pela convicção, observou, "Sim, sim, sim, mas, há pelo menos uma década, estudiosos responsáveis vêm mostrando que esse pluralismo radical só realmente permite, e mesmo incentiva, a glorificação de virtualmente qualquer outra cultura que não a ocidental – Outros azuis, Outros vermelhos, Outros roxos, Outros beges. Esta atitude boomerítica com certeza revitalizou o antigo impulso do selvagem nobre. Os Boomers deram esteróide aos Românticos!", ela sorriu docemente.

"Um dos numerosos exemplos... eu o tenho em algum lugar..." Van Cleef procurou na sua maleta. "Aqui está. Keith Windschuttle: 'O relativismo cultural começou como uma crítica intelectual do pensamento ocidental, mas, atualmente, tornou-se uma justificativa influente para uma das forças políticas mais potentes da era contemporânea. Isto é, o renascimento do tribalismo no pensamento e na política. A pretensão dos representantes de culturas tribais para ter completo domínio dos seus negócios é, provavelmente, a maior causa isolada de derramamento de sangue no mundo de hoje. Ela produziu a política sepulcral da Irlanda do Norte, Sri Lanka, Sudão, África Central, Oriente Médio e Balcãs. O pós-modernismo e o relativismo cultural são cúmplices nisso – ambos com sua insistência sobre a integridade de todas as culturas tribais, não importando que práticas ou valores elas perpetuem, e na acusação de toda a civilização ocidental. Entretanto, ao invés de se reconhecer a política do relativismo como um avanço na conceituação política, ela deve ser vista simplesmente como uma imagem especular de ideologias racistas que acompanharam e justificaram o imperialismo ocidental na era colonial.' Corretíssimo: eles são etnocêntricos até os ossos – ambos glorificam o pluralismo etnocêntrico em vez do pluralismo universal – ou pluralismo patológico no lugar do pluralismo genealógico – todos incentivados por uma boomeritis com sede de poder."

Van Cleef inspirou profundamente e aumentou o volume. "Uma glorificação da mentalidade tribal pré-convencional: paixão romântica favorita dos verdes – as tribos roxas e vermelhas. O Taleban é um bando tribal do norte do Afeganistão, vivendo próximo à terra, com anciães tribais e um conselho tribal, maravilhosamente livre dos valores do Iluminismo e totalmente livre do terrível paradigma Newtoniano-Cartesiano: selvagens nobres, ondas vermelhas florescendo livremente ao sabor dos ventos."

"Bem", ele rugiu, "uma onda vermelha inundou violentamente o World Trade Center e os verdes puderam vislumbrar os contornos reais daquilo que vinham louvando desde os Românticos originais. Selvagens nobres desconstruíram a civilização: legal, não é?" e bateu seu punho fortemente sobre a mesa, fazendo um ruído perturbador.

"Está bem, Derek, está bem. Você está passando dos limites," falou Morin.

"Não, não estou." A intensidade de Van Cleef zunia no ar. "Se não vamos 'fazer nenhuma distinção entre os terroristas e aqueles que os nutrem', então também não poderemos distingui-los filosoficamente."

"Ele tocou na ferida," Jefferson concordou. "Mas é um ponto que já salientamos. Não há dúvidas de que esses acadêmicos são cúmplices por criar uma atmosfera filosófica que hesitou em julgar negativamente os Outros e hesitou, igualmente, ao não dizer nada de positivo sobre a cultura ocidental. Deixemos que respondam pelos seus atos e pelas suas palavras. Nada que façamos mudará isto."

O Verde Sadio: Agora Mais do Que Nunca

"Atenção, estamos todos fugindo do assunto!", interveio Lesa Powell. "Nossa proposta é discutir as reações ao ataque, não suas causas, ou quem devemos culpar."

"Certo, certo; desculpe, fomos um pouco envenenados pela testosterona." Jefferson riu.

"Opa," Van Cleef aquiesceu. "Vejam, não estou culpando os pós-modernistas radicais por este ataque, somente ressaltando as dificuldades que ele trouxe para seu sistema de valores. Estou dizendo que suas respostas ao ataque – e a própria resposta geral do meme verde – sofreram de uma transvalorização de valores, porque a cultura do Outro – que era considerada BOA – aparece agora como realmente MÁ, e a cultura ocidental do Iluminismo – que era considerada MÁ – agora aparece como VÍTIMA. E de acordo com a linguagem de boomeritis, todas as vítimas são nobres, inocentes e boas. Subitamente, o Ocidente assegurou o cobiçado status de vítima, e isto desmantelou o sistema de valores do MVM, de tal maneira que suas respostas ainda estão entorpecidas, confusas, vagas, quase incoerentes."

"Bem, eles geralmente concluem com algo do tipo, 'Sim os terroristas fizeram uma coisa ruim. Mas não devemos retaliar; devemos aproveitar a oportunidade para refletir como todos nos tornamos terroristas quando somos grosseiros com outras pessoas; devemos usar isto como uma oportunidade de cura, de cuidado e de sentimento da nossa dor. Devemos refletir que todos somos irmãos e irmãs nesta humanidade e praticar o amor ao próximo diariamente. De vez em quando, desliguem a televisão e façam uma declaração mútua de amor. Enviem luzes curadoras e amorosas para todas as vítimas de qualquer lugar, não somente daqui, mas do mundo inteiro."

"O verde sadio é uma resposta decente e nobre," acrescentou Joan. "Espero que não esteja zombando desta atitude, Derek. Lembre-se de que boomeritis é o verde patológico, não o saudável. Almejo encontrar uma boa parcela de verde sadio em mim mesma, porque, agora, mais do que nunca, é o que precisamos."

Jefferson esfregou os olhos. "Mesmo assim, uma coisa que me preocupa é quando os verdes escorregam para, como diria, seu lado mais trivial..."

"Como a platitude de um bico de pato?" Fuentes sorriu.

"Oh, entendo seu humor. Não, Carla, o hipersensível, acima do normal, lado do cuidado, uma resposta que já circula na afirmação de Martin Luther King: 'A derradeira fraqueza da violência é que ela é uma espiral descendente, produzindo exatamente aquilo que quer destruir. Ao invés de diminuir o mal, ela o multiplica. De fato, a violência simplesmente aumenta o ódio. Responder violência com violência, multiplica a violência. O ódio não pode extinguir o ódio; somente o amor consegue.'"

"Mas, veja," continuou Jefferson, "esta afirmação está errada em quase tudo. Como um negro criado fora do Harlem, não preciso dizer a vocês que o Reverendo King foi minha salvação quando criança. Bem, ele e Charlie Parker, mas isto é outra história. De qualquer modo, neste caso, creio que seu coração obscureceu sua cabeça. Violência real é quase sempre extinta com violência mais dura através de mãos mais sensatas. Quando você encontra um Hitler neste mundo, a resposta correta, nobre, ética, espiritual é: arranje uma arma e estoure seus miolos. Acabamos com Auschwitz, não com amor, diálogo fraterno, treinamento em sensibilidade e pensamentos doces, mas sim com poder de fogo superior, ponto. Assim deve ser com a violência real do mundo real – a maior parte dela provém do meme vermelho, e, até que desenvolva seus limites azuis, ele somente pode ser contido pela força. Na maioria das vezes, a civilização não produz a barbárie, mas a restringe."

"O problema básico com os verdes é que confundem a prescrição de 'não ter violência em seu coração' com 'não usar violência no mundo real' – neste ponto, os verdes começam a contribuir para o problema, não para a solução. É ainda uma outra variante do triste fato de que os verdes – e sem dúvida o MVM e boomeritis – têm sido cúmplices do crescimento da violência insurrecional em todo o mundo. É óbvio que não devemos guardar ódio em nossos corações; mas também é óbvio que, ao encontrar nazistas – para usar o exemplo de Van Cleef – devemos exterminá-los." Uma gargalhada emergiu do semblante de profunda preocupação de Jefferson.

"Se os verdes desejarem uma sanção espiritual para isto, tentem ler o Bhagavad Gita. O guerreiro Arjuna está prestes a ir para a guerra; preocupado com o morticínio, invoca o Senhor Krishna para ajudá-lo a decidir o que fazer. Krishna, que é tão pós-verde quanto indômito, diz-lhe duas coisas: você deve cumprir seu dever no mundo real e, portanto, deve lutar e possivelmente matar, porque assim é o mundo real atual; mas ao cumprir seu dever, mantenha-se ligado ao Espírito, não como um modo para justificar a matança, mas como um modo de pairar acima dela. 'Lembre-se de mim e lute,' é o que Krishna diz a Arjuna. Ele não lhe diz para evitar a luta (típico verde), NEM diz para lutar em nome do Senhor (típico azul). Ele lhe fala para lutar e lembrar-se do Senhor, pois somente assim salvar-se-á no mundo real do carma inevitável."

"Obviamente há umas poucas situações – muito poucas – onde a não-violência funciona, isto é, em culturas onde existam valores do Iluminismo ocidental (tais como a América e a Inglaterra – as duas únicas culturas onde a não-violência realmente funcionou como estratégia). Em qualquer outra cultura que possua valores pré-laranjas, pré-modernos, pré-iluministas, se você se prostrar em frente das tropas que se aproximam, ah, muito obrigado! Muito mais fácil de exterminá-lo e economizar munição. Tente não-violência com os nazistas, a KKK, os Sargons, os Ramsés e os Pol Pots deste mundo e veja a que isto o leva. À morte, obviamente. E ao permitir que um mal maior floresça, sua morte nem sequer lhe traz um bom carma, mas o carma da covardia: ao invés, escute Krishna e cumpra seu dever, o que exige muito mais coragem do que fugir dele numa posição autocongratulatória de meme verde."

"Veja, nos memes pré-laranjas, a violência (ou a ameaça de violência) é praticamente o único caminho para extinguir a violência. No meme laranja, a guerra física muda para a guerra econômica e os campos de batalha deslocam-se para as salas de reuniões – mesma guerra, diferentes meios. Mas somente no meme verde, as pessoas desejam parar de lutar e somente no amarelo começam a usar estrategicamente a violência para acabar com ela. Mas os memes pré-laranjas usam só a violência e aí está o problema. Dar a outra face é exatamente o que você não deve fazer com memes pré-laranjas. Novamente: em seu coração, nenhuma violência; no mundo, cumpra seu dever."

"Correto, Mark, correto", interveio Joan, " mas gostaria de acrescentar de novo: a postura do verde saudável é um imperativo de qualquer resposta de segunda-camada. Transcende e inclui!"

"Concordo. Desejamos incluir os verdes. Mas também transcendê-los. Assim, se necessário, não confunda não ter violência em seu coração com não existir violência no mundo. Seu dever pode ou não incluir violência, mas não nos esqueçamos que, realmente, há ocasiões em que a violência acaba com a violência – ou, eu diria, refletindo a confusão e a natureza microscopicamente crescente de Eros: há ocasiões em que a violência substitui uma violência mais brutal por uma violência mais sutil, um mal menor visando a um bem sutilmente maior."

"O código de inspiração Zen dos samurais também é um bom guia: a melhor luta é não lutar; a verdadeira espada é nenhuma espada – mas se pensa que isto significa que um guerreiro Samurai nunca usará sua espada, acho que você é um pouco ingênuo."

Amarelo: Equilíbrio do Todo

"Vamos seguir em frente para a resposta amarela aos ataques terroristas – a resposta da primeira onda verdadeiramente de segunda-camada," sugeriu Morin. "Derek?"

"Bem," respondeu Van Cleef, "realmente, não conseguiremos falar sobre a resposta amarela sem antes falar sobre qual seria uma abordagem verdadeiramente integral para o terrorismo. Lesa, esta é sua especialidade..."

"Vejamos," respondeu Powell, "resumir as respostas amarela e turquesa é uma difícil tarefa, porque, embora articulem suas respostas em termos teóricos que usamos, elas são verdadeiramente integrais: tendem a ver a grande imagem (pelo menos tão grande quanto seja possível no mundo de hoje) e respondem ao Todo, por assim dizer, à medida que suavemente se desenvolve e evolui. O que tentamos fazer no CI é articular este Todo que se desdobra e isto levará alguns minutos!" Ela riu.

Está bem, você tem dois minutos," sorriu Morin.

"Jóia." Lesa respondeu ao sorriso rolando os olhos. "Está bem, vamos começar olhando para as possíveis causas deste terrorismo, porque uma resposta de segunda-camada não está divorciada da compreensão intuitiva deste Todo dinamicamente padronizado e oscilatório – o que significa que sua resposta e sua compreensão das causas são uma peça única. Bem, comecemos por aí."

"Todos sabemos que quando tentamos fazer historiografia, verificamos que simplesmente não existe UMA ÚNICA MANEIRA CORRETA para ver as coisas, embora os fatos sensório-motores sejam os mesmos. Vejamos os fatos deste caso: no dia 11 de setembro de 2001, dois aviões seqüestrados por não-americanos chocaram-se contra o World Trade Center, em Manhattan, destruindo completamente a estrutura e matando mais de 5.000 pessoas, enquanto outro avião seqüestrado chocou-se contra o Pentágono, matando algumas centenas. Esses fatos, embora incontestáveis, não podem ser entendidos apenas pela sua descrição, sem um completo sistema de valores culturais subjacentes (porque todos os hólons possuem um quadrante inferior esquerdo). Até aqui isto soa como um típico relato pluralista pós-moderno, exceto pelo fato de que vamos além do relativismo pluralista – que nega que qualquer dessas interpretações culturais seja superior às outras – defendendo um pluralismo genealógico, ou desdobramento desenvolvimentista, que sugere, baseado em extensa pesquisa, que alguns desses valores são superiores, melhores e mais abrangentes do que outros: globocêntrico é melhor do que etnocêntrico que, por sua vez, é melhor do que egocêntrico. Cada um deles pode ser apropriado para certas circunstâncias, mas não há dúvida quanto à categorização hierárquica de crescente capacidade para consciência, cuidado e compaixão."

"Eis onde quero chegar: Cada meme, ou onda geral de desenvolvimento, tem algo importante a nos dizer sobre como podemos e devemos interpretar a questão de causas e culpas deste evento particular. Apesar de que um meme mais elevado, mais inclusivo, tenha uma visão mais adequada da situação e portanto, mais precisa (embora nunca seja totalmente correta: isto não existe), mesmo assim, cada meme nos diz algo sobre como outros – e o Outro – podem ver o mundo em termos de quem culpar. Esta é a resposta geral de segunda-camada: sinta intuitivamente o que todas as diferentes respostas têm a nos dizer sobre a totalidade da realidade e sobre todos os seres humanos nela imersos. Mas a resposta de segunda-camada também compreende que o peso que deve ser dado para cada uma dessas respostas e interpretações é melhor avaliado pelo nível turquesa, uma vez que esta é a mais alta onda de consciência que, em média, se pode encontrar e que, até o momento, é a mais significativa já atingida nos quatro quadrantes; e, apresso-me a enfatizar, para que turquesa seja genuinamente adequada, deve levar em conta insights de terceira-camada (pelo menos como um estado, se não um nível)."

"Lesa, você pode explicar melhor tudo isso? Está tão denso," solicitou Hazelton.

"Tentarei daqui a pouco, Joan. Mas, antes, permita-me discorrer sobre o espectro das causas reais para o ato terrorista, sugerido por uma análise de todos os memes. Primeiramente e acima de tudo, a parte do leão da culpa fica com os terroristas, pura e simplesmente. Eles nem sequer estão representando valores vermelhos, mas sim valores vermelhos patológicos ou extremistas. Mesmo terroristas "saudáveis", se posso expressar-me assim, imediatamente condenaram seus atos. Yasser Arafat: 'Inacreditável! Inacreditável! Inacreditável!' Aquilo não era racional. Não interessa se você queira explicar como um ataque do bem contra o mal, ou um ataque da barbárie à civilização, ou um ataque à humanidade por pessoas insensíveis. No topo da lista a quem culpar, por uma larga margem, estão os terroristas – seus líderes, seus seguidores, seus cúmplices." Lesa levantou os olhos e sorriu. "Eles são aproximadamente completamente maus," e todo mundo riu – uma piada interna do CI.

"O que motivaria tais atos? Notem que virtualmente todos os memes, do vermelho ao turquesa, concordam que esses atos são doentios (não importa que circunstâncias atenuantes possam estar presentes, o que discutiremos depois). Assim, temos justificativas para perguntar que tipo de enfermidade ou má-formação estão envolvidas? Quais são seus contornos reais? Teríamos que fazer uma análise de 'todos os quadrantes, todos os níveis, todas as linhas' (uma psicografia integral) – não temos informações suficientes para fazê-la adequadamente – mas, alguns aspectos simples são sugestivos: no quadrante inferior esquerdo havia, e continua havendo, graves tensões econômicas (que podem ou não serem imputadas totalmente à globalização e ao capitalismo corporativo ocidental: isto é uma outra questão a ser decidida pelos seus méritos – posteriormente falaremos sobre ela); no quadrante inferior direito parece haver algo como um enrijecimento cultural em face da modernidade; isto aparenta ser um azul patológico ou associação-mítica distorcida, ao definir quase um único mito: a destruição do Outro; o Outro, neste caso, sendo o Ocidente (novamente, se o Ocidente tem culpa é outra questão; agora, o fato é: fenomenologicamente, isto parece ser o essencial do quadrante inferior direito desses terroristas); no quadrante superior direito, aumento da dopamina e decréscimo da serotonina, ou algo semelhante; no quadrante superior esquerdo, uma patologia de meme vermelho alimentada por uma formação superegóica azul distorcida; mais especificamente: linha cognitiva no laranja, linha do ego no vermelho com dissociação patológica e uma má formação no fulcro 3 / subfase b; o superego do ego tripartite contaminado por uma ideologia deformada de meme azul, internalizada e dura."

Lesa fez uma pausa. "Bem, apresentei metanarrativas suficientes para levar o MVM médio à loucura?" Todos sorriram e concordaram. "Oh, deixe-me acrescentar algo: foi um ataque taticamente brilhante, absolutamente brilhante, executado com impetuosa coragem. Mas agora estamos focalizando seu lado doentio..."

"Resumindo, parece razoável considerar que os terroristas eram vermelhos patológicos inflamados por uma ideologia azul distorcida – realmente, uma combinação explosiva. Nenhum sistema de valores sadio, de qualquer cultura que conhecemos, desculpa esses atos. Entretanto, a pergunta que surge é: em que extensão essas patologias nos quatro quadrantes podem ser imputadas a outros, como, por exemplo, o capitalismo global ocidental? Aqui, como vocês podem imaginar, a situação é um pouco mais complicada e sujeita a enganos."

Tradução de Ari Raynsford